Antropologia da Arte – UE

Junho 6, 2006

Estatuária Makonde

Filed under: Arte Africana, Estatuária, Povo Makonde — antropologiaue @ 2:49 pm

Podemos classificar os estilos da estatuária maconde do seguinte modo: Tradicional, do Período Colonial e Moderna.

Estatuária Tradicional

 

Antigamente costumavam representar os antepassados por estatuetas que os chefes da aldeia conservavam em casa. Os chefes eram simultaneamente chefes políticos e chefes religiosos. Segundo a concepção dos Macondes, os antepassados são de certo modo divinizados. Estes antepassados tanto podem ser do sexo feminino como do sexo masculino, sendo estes últimos o mais frequente;

Período Colonial

A produção deste tipo de artesanato foi encorajada no início por administradores e missionários que queriam lembranças do seu tempo em Moçambique para exposições coloniais na Europa. Havia um outro interesse motivado pelo turismo que cresceu em África, particularmente no sul e o aumento da colonização portuguesa.
Embora o aspecto do artesanato da estatuária e do entalhe integrado no mercado colonial fosse a produção de peças estereotipadas que satisfaziam os gostos europeus, havia alguns casos onde se mantinha originalidade desenhando visões estéticas significativas da cultura tradicional genuína.
A escultura era o artesanato mais aceitável dentro da economia colonial, por causa da madeira que era um recurso local.
A influência europeia aparece no centro e norte do país, na produção de mobiliário (mesas, cadeiras, lâmpadas e cinzeiros), transformando o escultor em carpinteiro, e introduzindo novas ferramentas, tais como o torno mecânico.
A arte do mobiliário tem um desenvolvimento gradual, misturando novas técnicas com acabamentos artísticos, frequentemente de desenho inspirado na natureza.
As técnicas usadas na arte do mobiliário em madeira eram usadas na arte decorativa, em miniaturas mostrando vários animais em lugares naturais e cenários do dia-a-dia africano.
Este tipo de arte foi minoritariamente desenvolvido na Zambézia e em Cabo Delgado, mas também foi espalhada por outras províncias, mas sem alcançar os mesmos níveis de excelência.
O mercado crescente deste tipo de arte contribui para o aparecimento de peças estereotipadas, de baixa qualidade estética e sem qualquer mérito artístico.
Reproduções de figuras religiosas e bustos de proeminentes colonialistas e outros, estavam também a ser produzidos em larga escala.
A escultura Maconde passou por outras fases antes de alcançar um estado de desenvolvimento.
Nos anos 40 quando a ocupação no norte de Moçambique começou a ser mais sistemática, os missionários e as autoridades portuguesas, impressionadas pelas capacidades do talhe dos Macondes, encorajou a produção e venda das mascaras do Mapico e de figuras humanas, tais como as executadas para a adoração familiar. Estas figuras são conhecidas como Machinamu, são cabeças e bustos de escala humana esculpidas em madeira de cor clara, tal como em Ébano. O Ébano tinha sido pouco usado até então porque era duro e difícil de talhar.
Neste período, os coleccionadores de arte africana mostraram mais interesse por a utilização desta madeira valiosa, e como era moda a representação de animais e cenas da vida quotidiana, os escultores começaram a receber comissões para este trabalho. Tornaram-se profissionais trabalhando para a administração local ou para a missão católica. Estas instituições faziam lucro, e os escultores escapavam ao trabalho forçado nos campos ou na construção de estradas. Este estatuto profissional, por um lado melhorava a especialização técnica, enquanto por outro lado, pôs um travão na criatividade, uma vez que eles estavam a fazer peças por encomenda. Mesmo dentro destas condições, os Macondes revelavam uma habilidade notável na representação realista, com grande poder de observação. As figuras humanas e animais mantinham a sua forma natural, mas com expressões e poses surpreendentes.

Estatuária Moderna

Do estilo moderno há que destacar o Estilo Shetani e o Estilo Ujamaa.
Nos anos 50, é significante um novo desenvolvimento da arte entre os Macondes, que foram para a Tanzânia e tomaram contacto com ideias políticas e sociais. Isto ajudou a alterar as suas consciências.
A escultura Maconde, deixa de ser apenas os objectos tradicionais que eram comercializados ao longo da costa do sul de Tanganyika.
Desde a independência, cabeças esculpidas de quase tamanho real têm aparecido demonstrando versatilidade, que pode ser retirado da imaginação do artista. As cabeças são de uma grande beleza e equilíbrio estético. Em vez de terem cabelo no topo, parecem seres animais e mitológicos a devorar-se simultaneamente.
É uma ilusão impressionante e profundamente dramática. São as preocupações e acontecimentos do dia-a-dia, expressados pelo simbolismo. Símbolos de fertilidade, imagens representativas de luta anti-colonial, o erotismo dos espíritos.

Estilo Shetani

No início dos anos 60 a escultura toma um carácter bizarro, naquilo que viria a ser conhecido como estilo Shetani. Desenvolveu-se entre os Macondes que viviam no exílio na Tanzânia, porque em Moçambique colonial a força da igreja católica proibiu os talhadores de trataram temas das suas tradições ancestrais e espíritos.
Mesmos os rituais como o Mapiko foram proibidos e reprimidos, desde que isto era visto como uma heresia pagã, nos termos dos valores cristãos impostos pelo o colonialismo.
Os Macondes das áreas ocupadas pelos portugueses continuaram a talhar essencialmente figuras realistas, embora umas fossem mais estilizadas do que outras.
O estilo Shetani revelou uma cosmogonia de seres e espíritos malignos que habitam a natureza e forças que o homem tem de enfrentar todos os dias.
A partir do ano de 66 este estilo começou a ganhar reconhecimento a nível mundial.
Shetani é uma palavra usada para traduzir os espíritos Nandenga da cosmogonia Maconde, que também é representada no Mapico.
Contudo é melhor descrito nos contos que são passados de boca em boca.
É um espírito mau que espalha a doença como o vento. Têm só uma perna, um braço, um dedo, um olho, e um cabelo.
No norte da Zambézia, é chamado o “espírito do Mato”.
A palavra Shetani pode ser usada ainda para descrever qualquer figura ou espírito não identificado, como animais de diferentes tamanhos, principalmente nocturnos e misteriosos.
Cada Shetani têm o seu próprio nome e ambiente geográfico. Alguns são das florestas, outros das planícies ou das aldeias. Uns têm prostitutas, e alguns foram trazidos pelos indianos ou pelos europeus.
Os Shetanis não explicam o mundo, mas com todas as suas fábulas ajudam a passar as dificuldades que podem ocorrer no dia-a-dia.
Em suma, eles têm um sentido simbólico, profundamente humano, criativo e estimulador para a imaginação.
Toda esta cosmogonia era expressada na escultura, com um sentido de grande equilíbrio e movimento.
Era uma representação eloquente do sofrimento, angustia e desespero, mostrava uma técnica notável em transformar a fantasia em escultura e expressar novas ideias que surgiam do contacto com outros povos e situações.

Artistas:

Bartolomeu Ambelicola
Nasceu no ano de 1939, Cabo Delgado, oriundo de uma família de escultores. Ainda em criança começa a esculpir fazendo parte da sua infância o convívio com os velhos mestres.
Coma Luta Armada cedo se passa para as Zonas Libertadas onde continua a desenvolver a sua arte.
Em 1978 vai residir para Nampula, mas em 1983 por motivos de sobrevivência regressa a Nandimba onde hoje vive como camponês. Tem obras suas na colecção do Museu Nacional de Arte e do Museu de Nampula.
Celestino Tomás
Nasceu em Miúla, Mueda, Cabo Delgado, em 1944, no seio duma família de grandes escultores. Teve como Mestre seu Tio Ndomessa André com quem se inicio verdadeiramente na escultura depois de ter frequentado durante dois anos a Missão de Lipelwa. Em criança já brincava esculpindo em paus leves e mandioca.
Foi emigrante na Tanzania de 1964 a 1972 onde continuou a esculpir tendo-se então instalado em Dar-es-Salam e depois em Arusha. EM 1975 regressa a Miúla e durante três anos faz a sua casa e dedica-se ao trabalho no campo. Em 1978 vai para Nampula numa tentativa de poder vir a dar continuidade à sua arte o que veio a concretizar, e onde se manteve até 1981, data em que se viu obrigado a regressar à sua terra, por questões de sobre vivênvia, vivendo hoje como camponês. Tem obra em colecções de vários países, tendo participado também em exposições colectivas em Moçambique como peçaas da colecção do Museu de Nampula.

Cristovão Alfonso
Nasceu em 1949 em Nampanha, Mueda, Cabo Delgado tendo ainda em criança emigrado para a Tanzânia, com os pais, donde regressa só em 1976, a Namaluco – Quissanga, transferindo-se em seguida para Nampula onde passa a viver. E é já em 1979 – com 30 anos de idade que se inicia na escultura, aprendendo com os seus familiares, entre os quais se conta seu irmão Jerónimo Dinhuassua já falecido.

Lamizosi Madanguo
Lamizosi conta 36 anos e nasceu em Miúla, Mueda, Cabo Delgado. Cedo seguiu a tradição familiar de ser escultor. São seus irmãos, Nkalewa Bwaluka e Cristiano Madanguo tendo já ele um filho a esculpir, Francisco Lamizosi.
Quando inicia os seus estudos, na Missão de Lipelwa, logo os tem que interromper dado o começo da Luta Armada. Iniciada esta, mantêm-se sempre nas Zonas Libertadas desenvolvendo aí a sua arte.
Periodicamente deslocava-se a Mtwata na Tanzânia onde vendia todas as suas obras.
Em 1978 vai para Nampula e integra-se na Cooperativa 16 de Junho, onde ainda hoje vai vivendo da sua arte.
Obras suas pertencem a museus nacionais e várias colecções provadas.

Miguel Valingue
Nasceu em Nanhagaia, Mueda, Cabo Delgado em 1953. Em 1964 entra para a escola primária, junto ao Régulo Likama, aderindo por essa altura também à Luta Armada, o que o leva a optar pelas Zonas Libertadas do Planalto de Mueda e a abandonar os estudos. Em 1968 vai para a Tanzânia com a família, começando em 1969, e tendo como Mestre se irmão Rafael Massude.
Até 1974 vive em Mtawara regressando no Governo de Transição a Mueda.
Em 1978 fica residência em Nampula e passa a fazer parte da Cooperativa 16 de Junho. Em 1986 vem para Maputo em busca de melhores condições de vida. Tentou entrar para uma cooperativa, mas constatou que aí só aceitavam artesanato em série. Hoje, trabalha por conta própria respeitando a sua arte. Tem várias obras nas colecções do Museu Nacional de Arte e do Museu de Nampula.

Nkabala Ambelicola
Nasceu em Miúla, Mueda, Cabo Delgado, em 1930 e como era natural do seu meio familiar, logo em criança abraçou a arte de esculpir em madeira. Pertencendo a uma grande família de escultores, ele tem como Mestres seu pai, Ambelicola Njeu, e seu tio, Kyakenia.
Logo após o massacre de Mueda adere à FRELIMO apoiando a Luta Armada por todos os meios ao seu alcance: desde o transporte de material de guerra à produção no campo, sem contudo abandonar a sua arte.
Quando da Independência sai de Nandimba onde se encontrava e vai para Nampula em busca de trabalho, fixando aí residência e passando a elemento da Cooperativa 16 de Junho.
Participou em várias exposições colectivas no exterior em Moçambique, tendo obras suas em várias colecções nacionais.

Nkalewa Bwaluka, ou Leo, como antigamente assinava as suas obras, nasceu em Miúla, Mueda, Cabo Delgado, em 1928. Pertence a uma família de grandes escultores e tem dois filhos que já o são: Machele Nkalewa e Nancheto Nkalewa. Quando era pequeno acompanhava o seu pai na feitura de máscaras Mapiko que deveriam ser usadas no final das cerimónias de iniciação, começando também com o pai a esculpir figuras humanas.
Em 1963 emigra para a Tanzânia passando a viver em Masunga, Mtwara, onde desenvolveu grande actividade, que depois enviava as peças para a Europa.
Em 1967 instala-se junto à Estrada de Moshi, esculpindo e vendendo aí os seus trabalhos.
Em 1976 regressa a Miúla, passa a Nampula e em 1978, por questões de sobrevivência regressa à sua terra onde hoje é caçador. Obras suas pertencem a museus nacionais e colecções particulares no estrangeiro.

Estilo Ujama

Nos meados dos anos 60, os escultores Macondes, tinham o estatuto de refugiados políticos, uma vez que o seu país estava ocupado pelo poder colonial.
Por esta altura um novo estilo de talhe aparece, o estilo Ujama.
O estilo Ujama embora tenha aparecido mais tarde do que o Shetani, na sua forma compacta é mais aproximado do tipo de talhe tradicional africano.
A base é esculpida bem relevo para representar a família, de forma realista nos corpos e caras, mantendo características típicas Macondes.
Na forma não compacta as figuras formam uma torre acrobática, captando o sentido de movimento expresso no estilo Shetani.

Artistas:

Kauda Simão
Nasceu em Idovo, Mueda, Cabo Delgado, em 1958. Oriundo de uma família de escultores. Ainda em criança começa a esculpur, mas logo no início da luta armada passa-se para as Zonas Libertadas vivendo e convivendo entre escultores mais velhos e em associação com estes.
Integrado na Luta pela Independência ele apoia tomando parte em alguns combates e carregando material de guerra. Reinicia a actividade de escultor em 1979, em Nampula.
Rafael Nkatunga
Nasceu em Ncaja Nasingusa, actual aldeia Litembo, Mueda, Cabo Delgado, em 1951. Tinha apenas um ano de idade quando acompanhouo seu s pais que emigraram para a Tanzânia, indo viver para Dar-es-Salam onde fez instrucção primária, começando então a trabalha como seu cunhado, Constantino Mpakulo, que considera ainda hoje o seu verdadeiro Mestre. EM 1968 instala-se junto à Estrada de Bagamoyo, onde começa a trabalhar, regressando a Moçambique em 1973, indo viver numa base da FRELIMO e passando a trabalhar no campo como a melhor forma de apoio à Luta Armada. Em 1975 volta a Mueda e retoma a sua arte.
Em 1977 fixa residência em Nampula onde trabalha ainda hoje.
Obras suas já participaram em várias exposições internacionais e estão representadas em várias colecções nacionais.

1 Comentário »

  1. uma merda

    Comentar por jgkghkf — Abril 1, 2008 @ 11:23 am


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Create a free website or blog at WordPress.com.

%d bloggers like this: