Antropologia da Arte – UE

Junho 6, 2006

Desenhos na areia – Povo Txokwé

Filed under: Arte Africana, Desenhos na Areia, Povo Txokwé — antropologiaue @ 2:46 pm

Num continente de grandes extensões de superfícies arenosas, é natural que as pessoas instintivamente sejam levadas a riscar o solo, tal como as que vivem perto de rochas ou cavernas sejam levados a gravar estas. Inevitavelmente os desenhos vão desaparecendo devido à evolução dos costumes. Fazendo parte da cultura decorativa própria do povo Txokwé, os desenhos na areia aparecem já como ponto importante na sua cultura que se começa a perder com o passar dos tempos. Reunidos no terreiro da aldeia ou no acampamento de caça, à volta da fogueira ou á sombra de árvores, sentados no chão, sobre os calcanhares, esteiras e peles, com os cotovelos apoiados nos joelhos, os quiocos passam o tempo a ilustrar as suas conversas com desenhos no chão, relacionando-os com lendas, animais, adivinhas, símbolos e jogos. Estes desenhos constituem motivo de divertimento e passatempo, além de ser uma curiosa forma de comunicar com a comunidade relembrando tradições culturais.
Depois de alisar a superfície que vão utilizar, começam por marcar pontos com as extremidades dos dedos, formando linhas horizontais e verticais. Empregam também as pontas dos dedos indicadores, médio e anelar juntos, para imitar pegadas de animais.
Uma vez marcados os pontos em número e nos lugares desejados, traçam-se as linhas geralmente sem levantar o dedo do chão, até concluírem o desenho. No traçado de alguns desenhos empregam os dedos indicadores de ambas as mãos simultaneamente.

Tipologias de desenhos:

-desenhos esboçados a traço contínuo a terminar no ponto de partida:

-desenhos de extremidades livres:

-desenhos em que o traço é interrompido fechando os espaços:

-desenhos em que o traço é interceptado ligando pontos:

-desenhos em que o traço é interceptado, sobrepondo os pontos:

 

A estes desenhos os Txokwé chamam de sona (plural de lusona), que significa algo relativo à escrita em geral como as letras, figuras e desenhos. Aos pontos ou montes de areia dão o nome de mena, às marcas e sinais chamam de tobe ou matumbo, e aos traços em zig-zag e traços envolventes chamam mifunda. O segredo da leitura destas representações e a sua interpretação vai-se perdendo com o próprio povo que o inventou com o passar dos tempos. Hoje em dia não é normal haverem muitas pessoas a conseguirem identificar alguns desenhos muito complexos que só os elementos mais velhos de cada aldeia sabem ou conhecem de vista, e que lhes atribuem realmente algum sentido de herança cultural e de dificuldade expressiva e racional na sua elaboração. Existe uma forte ligação entre a tradição oral e a própria interpretação dos desenhos. Os desenhos na areia fazem parte de uma liturgia de cantos e antigos ritos, uma linguagem perpetuada pela tradição oral. Predominam as representações de animais e génios da floresta, como é natural num povo de caçadores e agricultores e prestam-se a jogos e cerimónias de prestidigitação. Representam artifícios para transmissão de mensagens de remota antiguidade, que passam informações de homem para homem, ou então, do homem à divindade. Estes desenhos, dos quais o emissor e o receptor possuem o código, serão antes combinações de pontos e traços construídos de forma a indicar símbolos distintos capazes de representar ideias, coisas e seres.

 

"Kuku" ou "Kalamba" (Adão Pensador) Símbolo de velhice prolongada que personifica o culto ancenstral. Tem grande importância familiar e representa o chefe do povo:

 

"Sakasua" Diz Sakage (o artista) que "Sakasua" é uma pessoa de idade avançada onde foi abandonado no mato onde veio a falecer. Passando pelo local um viajante, pareceu-lhe ver naquele corpo já desfigurado, uma perna de kanga (galinha do mato). Este foi logo a correr contar à galinha e foram-se certificar: Realmente uma das pernas era de kanga, mas a outra era de mbongo (personagem mascarado munido de andas). Chamado este para enterrar seu parente, verificou que uma da peranas era mbongu, mas que a cabeça tinha astes de mbau (búfalo) e, que portanto devia pertencer a família dos búfalos, chegando este, constatou que tinha tromba de elefate e quando este chegou ao local também ele não conseguiu identificar o pobre "Sakasua".Provérbio Quioco: "Mufu kashi kurivukia" ou seja, "Morto não faz o esquife, é obrigação de família":

 

"Mukupela" Tambor de duas faces. Cada uma das faces mostra uma porção de uselo que é um preparado de borracha virgem que se aplica nas peles:

 

"Tshintu tsha kuma Mwata" Lembra que o mwata deve tratar bem o seu povo, escravs e visitantes. O desenho forma dois SS:

 

"Mbatshi" Desenho representando uma tararuga recolhida na sua carapaça:

 

"Kalunga" ou Deus. Ideograma que representa Kalunga:

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