Antropologia da Arte – UE

Junho 6, 2006

Apresentação e localização geográfica do povo Makonde

Filed under: Arte Africana, Povo Makonde — antropologiaue @ 2:47 pm

As terras altas do nordeste moçambicano foram o berço dos macondes (também designados em épocas remotas por vandondes e mavia). Até aos nossos dias a literatura etnográfica e histórica tem usado o termo “makonde” e vocábulos semelhantes para designar uma etnia cultural e linguisticamente homogénea que acabou por se fixar nos altiplanaltos. Os macondes, mais do que descendentes homogéneos de populações antigas, resultariam de miscigenação de gente de diferentes grupos que se refugiou nestes planaltos.
Mas estes altiplanaltos passaram a ser também regiões de onde se saia na época com dificuldade por causa das razias e caça ao homem nas terras baixas; por isso, formou-se um espírito permanente de defesa entre homens das terras altas que organizavam grupos armados quando acompanhavam as mulheres às encostas para buscar água ou quando às terras baixas para caçar ou fazer comércio na costa do Oceano Índico. Mas com a chegada dos angonis ou ngunizados ao vale do baixo Rovuma (1866-1882) e ao vale do médio Messalo (1874-1886), estes “macondes” foram reduzindo cada vez mais as suas expedições de caça às terras baixas onde abundavam os animais pretendidos. Só em 1917-1920 é que foi vencida pelo colonialismo imperial a resistência dos habitantes dos altiplanaltos. Antes disso, para escapar aos negreiros e aos ataques dos angoni, fortificaram os acessos ao planalto, e apenas desciam dele por caminhos especiais para capturar mulheres entre os Macua, Andondes e outras comunidades da planície, e para venderem no litoral cera, mel, goma copal e borracha.
Por causa destes perigos, supôs-se durante muito tempo que o povo do planalto terá vivido à margem do grande comércio de escravos e de marfim, das guerras com outros povos e de influências religioso-culturais externas até praticamente ao fim da primeira Guerra Mundial.
Porém, este povo, dito isolado e xenófobo, esteve desde cedo no século XX, em contacto comercial regular com os entrepostos costeiros de Olumboa, Pangame, Mocímboa da Praia e outros entrepostos além Rovuma.
A sociedade maconde das terras altas era caracterizada por ser profundamente segmentária, sem poderes políticos territoriais relevantes, mas com uma tradição guerreira. No vale do Rovuma, zona marginal ao território propriamente dito dos macondes, chegou-se a formar uma espércie de coligação de várias aldeias devido ao contacto com as caravanas de escravos que desciam o Rovuma. Também na região de Nangadi, grandes chefes macondes detinham o monopólio do comércio da borracha quando este produto passou a ser muito procurado pelo comércio internacional; um deles era o Matxemba.
Nos planaltos, cada aldeia era um “reino”. O chefe da aldeia, chamado nangolo, era a mais alta autoridade política. Era ele que distribuía as parcelas agricolas, organizava as caçadas, dirigia o comércio e as cerimónias religiosas. Os chefes das aldeias resolviam as disputas entre os residentes da povoação, conflitos que surgiam pelas razões mais diversas, mas sobretudo por causa de mulheres.
A captura de cativos entre os macondes tinha como único objectivo o equilíbrio numérico dos membros da linhagem e o aumento de dependentes, fornecedores de trabalho e riqueza. Por isso, em vez de os venderem no litoral, faziam deles consumo interno, integrando-os na sociedade através de tatuagens identificadoras de pertença ao grupo. Os macondes do sul do Tanganyika usaram cativos para os trabalhos agrícolas de modo a que os homens livres pudessem dedicar-se à colheita da borracha. A esta actividade também se entregavam os macondes de Moçambique; os homens colhiam o látex de uma trepadeira (Landolphia) muito frequente nos planaltos; com a resina faziam pequenas bolas que iam vender às lojas do litoral, principalmente Mocímboa da Praia. Por troca de borracha e de goma copal, os macondes conseguiam bens materiais e de prestígio como panos, espingardas, pólvora, etc. Estes bens eram usados como dote e como indemnização, circulando entre as linhagens para sedimentar alianças e evitar a guerra.
Os Macondes utilizavam o trilho do comércio que ia até Tungué e Quionga e por vezes até ao litoral Tanzaniano. Por causa da instabilidade nas terras ribeirinhas do Messalo e o perigo que representavam as excursões ao litoral de Quissanga abandonaram esta rota com a chegada dos angoni às terras baixas de Nagadi
Numa sociedade guerreira onde a valorização de qualquer iniciado passava pelo seu mérito na arte da guerra, o valor funcional e simbólicos atribuído às armas era de grande importância. Foi durante a segunda metade do século XIX que os macondes passaram a ter acesso às espingardas, votando-lhe uma especial atenção.
As espingardas de carregar pela boca tornaram-se essenciais na defesa do território e foram aos poucos substituindo as capulanas quando estes panos começaram a ser mais acessíveis e a deixar de ser reservadas como bens raros de prestígio.
As espingardas foram introduzidas na sociedade maconde da mesma maneira e nos mesmos circuitos que os panos, mas rapidamente se tornaram instrumento de submissão dos sobrinhos que foram obrigados a prestações de trabalho e a tributações em produtos aos anciãos da linhagem e da aldeia. As espingardas circulavam entre os macondes no mesmo sentido que os panos mostravam a riqueza e o poder das linhagens que as detinham. Mas o uso social da espingarda traía o fictício objectivo do consumo final dos panos pelas mulheres. Estas faziam um consumo ostentatório das capulanas não sendo isso senão um instrumento de subordinação dos jovens masculinos pelos homens mais velhos. O consumo das espingardas passou a ser um privilégio dos homens mais importantes da sociedade, circulando directamente entre mãos dos chefes das linhagens ou das aldeias. Este novo bem de prestígio para além da entrada nos circuitos matrimoniais, entrou também na esfera do político, pois a guerra era gerida pelos mahumu (chefes das linhagens) e executada pelos chefes das aldeias, constituindo um importante elemento da magia e um elemento que integrava as cerimónias pós-funerárias.
A partir de 1898 foi proibida a venda de espingardas e de pólvora aos “indígenas”, de modo que a sua aquisição passou a ser feita clandestinamente no litoral do Tanganyika, deixando ser Mocímboa da Praia o seu principal centro de procura, porque mais controlado.
Com o impacto das novas actividades comerciais na segunda metade do século XIX, a tradicional divisão sexual do trabalho começou a declinar. As actividades masculinas, relacionadas tradicionalmente com a caça e a colecta de bens comercializáveis estenderam-se ao domínio agrícola, no qual os homens passaram a participar com maior intensidade que no passado.
Mas paralelamente a estas crescentes actividades lucrativas relacionadas com o comércio que os homens executavam na agricultura, na caça e na colecta, as primeiras grandes manifestações de mudança na sociedade maconde foram desencadeadas durante a vigência da Companhia do Nyassa pela emigração para o Tanganyika, embora de fracos efectivos ainda nessa época e sem consequências na organização socio-económica dos grupos domésticos.
Depois da conquista colonial dos altiplanaltos, a Companhia foi dividindo o território em regedorias e nomeando os respectivos régulos para a montagem do aparelho administrativo. Mas este processo da montagem dos regulados que só seria concluído mais tarde, já nos anos 40.

10 comentários »

  1. Gostei muito do site e das informações nele contida.Estudo etinias africanas e tenho interesse particular nessa etinia que lutou para não se deixar consumir pelo colonizador.Gostaria de receber mais informações sobre o povo maconde.Desde já agradeço.

    Comentar por Rosangela — Julho 10, 2007 @ 5:33 pm

  2. Gostei muito do site e das informações nele contida.Estudo etnias africanas e tenho interesse particular nessa etnia que lutou para não se deixar consumir pelo colonizador.Gostaria de receber mais informações sobre o povo maconde.Desde já agradeço.

    Comentar por Rosangela — Julho 10, 2007 @ 5:34 pm

  3. Aproveitando , gostaria muito de que voces também falassem sobre o povo serere e os wolofs, que ficam no Sènègal.

    Comentar por ymaraz — Agosto 29, 2007 @ 1:57 am

  4. Obrigada, por divulgarem historia sobre a nossa cultura.
    Sou estudante e o nosso sistema de educacao, tem-se preocupado em que aprendamos mais sobre nos mesmos. No entanto, temos tido dificuldades na bibliografia e onde encontrar as informacoes. Pois nos de nos mesmos pouco escrevemos ate agora (efeitos coloniais.
    Gostaria de ver publicacoes de mais etnias nossas (sei que sao muitas)

    Comentar por Dina — Outubro 11, 2007 @ 9:53 am

  5. Não sendo natural de Moçambique apaixonei-me pelas suas gentes logo que ali cheguei em 1962,
    como Professor Primário.
    E, enquanto tal, ouvi inumeras versões sobre a origem do povo Angoni.
    Uma delas afirmava a sua origem no Sul do Continente e, como povo guerreiro, foi avançando
    para Norte acabendo por se fixar no planalto a cujo nome, Angónia,deu origem.
    Um esclarecimento seria bem vindo, até para esclarecimento de um grupo de amigos que nasceram
    e ou viveram à beira Zambeze.

    Comentar por Oscar Ribeiro — Outubro 21, 2007 @ 11:01 am

  6. gostei da informações queria receper mais informações

    Comentar por Eliane aparecida da silva — Março 25, 2008 @ 1:12 am

  7. assim foi o a minha tribo…

    Comentar por felizardobento — Maio 19, 2012 @ 4:59 pm

  8. eu sou nativo de moçambique
    pertecente à dinastia machangana,
    eu gostaria que nos trucessem informações a serca.

    Comentar por Jhedy ortodoxo décimo príncipio — Janeiro 18, 2014 @ 2:42 pm

  9. muito bonito esse nosso povo!

    Comentar por dett — Maio 6, 2014 @ 5:50 pm

  10. obrigado por ajudar a conhecer melhor a minha origem! orgulhosamente makonde

    Comentar por dett — Maio 6, 2014 @ 5:52 pm


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